Vinte euros, dez minutos, uma cadeira de plástico à beira da estrada. É esta a imagem que melhor resume o sexo na rua em Portugal em 2026. Longe das “montras” dos anos 80 e 90, a prostituição de rua tornou-se residual, dispersa e invisível para quem não a procura — mas continua a existir, e continua a ser o segmento mais precário, mais exposto e mais ligado à pobreza, à toxicodependência e à exclusão social de todo o mercado sexual português.
A maior parte desse mercado migrou para o digital: anúncios online, WhatsApp, apartamentos e casas de massagens. A rua ficou para quem não conseguiu, não quis ou não pôde dar esse salto. Este artigo reúne o que se sabe, com base em reportagens de investigação, dados de organizações de terreno, jurisprudência e notícias recentes, sobre onde, como e por quem se pratica o sexo na rua em Portugal.
O que diz a lei: legal para quem vende, crime para quem lucra
Em Portugal, vender serviços sexuais entre adultos que consentem não é crime desde a entrada em vigor do Código Penal de 1982 (1 de janeiro de 1983), que deixou de criminalizar a prostituição, o adultério e a homossexualidade. O que continua a ser crime é o lenocínio — previsto no artigo 169.º do Código Penal — ou seja, fomentar, favorecer ou facilitar profissionalmente ou com intenção lucrativa a prostituição de outra pessoa, com penas de seis meses a cinco anos (até oito anos quando há violência, ameaça, fraude ou abuso de vulnerabilidade). Tráfico de seres humanos e qualquer forma de coação são crimes autónomos e mais graves.
O Tribunal Constitucional foi chamado a pronunciar-se mais de uma dúzia de vezes sobre o chamado “lenocínio simples” (lucrar com a prostituição alheia mesmo sem coação) e tem mantido de forma consistente que a norma é constitucional, com o argumento de que o aproveitamento económico por terceiros constitui, por si, uma exploração da pessoa prostituída.
O resultado é um quadro ambíguo, habitualmente classificado como abolicionista: quem se prostitui não é criminalizado, mas também não tem estatuto laboral, contrato, proteção social nem acesso claro a direitos. Muitas trabalhadoras acabam por abrir atividade nas Finanças com outras designações (massagista, esteticista, serviços de limpeza) para poderem descontar. Em 2026 continua sem haver regulamentação, apesar de propostas pontuais de partidos e de organizações que defendem, por um lado, o reconhecimento do trabalho sexual e, por outro, o modelo nórdico de criminalização do cliente.
Como a rua se esvaziou: da “montra” à internet
Historicamente, a prostituição de rua teve períodos de grande visibilidade. Em Lisboa, o Cais do Sodré, o Bairro Alto, a Mouraria, o Intendente e o Conde Redondo foram zonas clássicas. No Porto, a Baixa e ruas do centro histórico tiveram um papel semelhante. A partir dos anos 90, com a chegada de mulheres do Brasil e do Leste da Europa, o fenómeno intensificou-se e ganhou redes organizadas.
A partir de meados dos anos 2000, três forças esvaziaram a rua: o policiamento e a requalificação urbana (com a gentrificação e o turismo a “limpar” os centros históricos), a internet (que permitiu anunciar e filtrar clientes sem exposição) e, depois de 2020, a pandemia, que empurrou quase tudo para o online. Estudos da década de 2000 apontavam para cerca de 28 mil pessoas no trabalho sexual em Portugal, metade delas estrangeiras — mas esses números referiam-se sobretudo a apartamentos e bares, não à rua.
Em 2025 e 2026, o aumento do custo de vida trouxe algumas mulheres de volta às bermas e às matas, como mostram as intervenções municipais no Norte e as reportagens sobre a Península de Setúbal. Mas o movimento dominante continua a ser o inverso: a rua encolhe, o online cresce.
Lisboa: onde a rua ainda resiste
A Área Metropolitana de Lisboa concentra a maior parte da atividade de rua reportada no país. As zonas referidas com mais frequência em reportagens, queixas de moradores e intervenções sociais são as seguintes.
Intendente, Martim Moniz e Mouraria
A zona histórica por excelência. Apesar da forte gentrificação e da presença constante de turistas, à noite, sobretudo depois das 22h, ainda se observam mulheres a circular e a abordar clientes na Rua do Benformoso, no Largo do Intendente e nas ruas adjacentes. Há uma forte sobreposição com toxicodependência e pessoas em situação de sem-abrigo. O GAT Intendente, centro comunitário de saúde aberto em 2016 na Rua Antero de Quental, faz rastreios rápidos e anónimos (VIH, hepatites, sífilis), distribui preservativos e material de prevenção e trabalha diretamente com pessoas que fazem trabalho sexual, migrantes e sem-abrigo.
Parque Eduardo VII, Alto do Parque e Avenidas Novas
É a zona mais citada nos últimos anos. Reportagens da Investigação CM descreveram prostituição de rua junto aos hotéis de luxo à volta do Parque Eduardo VII e nas ruas próximas do Instituto Superior Técnico, com preços “a começar nos 20 euros dentro do carro” e a subir quando há pensão. Em 2022, moradores do Alto do Parque (freguesia das Avenidas Novas) levaram o problema à primeira reunião descentralizada da Câmara de Lisboa, e o comandante da Polícia Municipal admitiu que a prostituição na zona estava “a retomar índices elevados”, com policiamento reforçado. Ruas como a Rodrigo da Fonseca e as transversais entre o Marquês de Pombal e o Técnico funcionam como uma “montra móvel” noturna: o carro abranda, a abordagem é rápida, o serviço faz-se no carro ou numa pensão da zona.
Reta de Coina (Península de Setúbal)
A berma de estrada mais conhecida do país. A Investigação CM contou, em média, mais de 20 mulheres por dia num troço da estrada, sentadas em cadeiras de plástico ao longo do percurso, a pedir cerca de 20 euros por dez minutos de sexo. Muitas preferem trabalhar “de portas abertas”, no exterior, a entrar em carros com desconhecidos. A Reta de Coina é também o exemplo mais cru da violência do circuito: em 2021, o autoproclamado “dono da reta” foi condenado a nove anos e meio de prisão por violar, agredir e extorquir as mulheres que ali trabalhavam, e reportagens posteriores deram conta de um “novo dono” a cobrar 30 euros por dia a cada uma. O número de mulheres oscila com a época do ano e com a pressão policial, mas a atividade nunca desapareceu.
Parque Florestal de Monsanto
Junto à estrada do Alvito, Monsanto tem uma dinâmica diferente: diurna, discreta e sobretudo de mulheres mais velhas. Reportagens descreveram trabalhadoras a chegar de transportes públicos por volta das 10h da manhã, a cobrar 15 a 20 euros e a sair à hora de almoço. Depois de a Câmara ter tentado, em 2003, afastar a atividade com faixas amarelas de proibição de estacionamento, a associação O Ninho voltou a registar um aumento em 2019, atribuído à requalificação das zonas históricas — as mulheres não desaparecem, deslocam-se.
Outras menções
Praça da Figueira, Rossio, ruas laterais da Avenida Almirante Reis e o Conde Redondo (historicamente ligado a travestis brasileiras) surgem em menções pontuais, mas com muito menos regularidade do que há 15 anos.
O perfil dominante em Lisboa é o de mulheres em maior vulnerabilidade: mais velhas, muitas com problemas de adição, algumas imigrantes em situação irregular. As mais novas (18-25 anos) são raras na rua — preferem o online e os apartamentos, onde controlam melhor os clientes, os preços e a segurança.
Porto e Norte: disperso, discreto e cada vez mais nas matas
No Porto a atividade de rua nunca foi tão concentrada como em Lisboa e não existe um “bairro vermelho” claro. Estudos académicos sobre a territorialização da prostituição na cidade descrevem pequenos núcleos em ruas do centro e da Baixa (Coelho Neto, Ferreira Cardoso, Loureiro e arredores são as mais referidas), além de presença em periferias como Campanhã e o Bonfim. O perfil tende a ser mais local e menos ligado a redes internacionais.
O Espaço Pessoa, projeto da APF a funcionar desde 1997 na Travessa das Liceiras, é a principal referência de apoio: abre de segunda a sábado ao fim do dia, tem psicologia, enfermagem e serviço social, balneários, lavandaria, troca de seringas (desde 2003), rastreios de IST e equipas de rua que chegam também a Braga e Viana do Castelo.
A novidade de 2025 está fora da cidade. Em novembro, a Câmara de Lousada colocou blocos de betão nos acessos às matas do concelho para travar a prostituição nas bermas e caminhos florestais. A autarquia identificou 11 mulheres — quatro brasileiras, duas portuguesas, uma moçambicana, entre as que aceitaram falar — a maioria residente em Braga, com outras vindas de Felgueiras, Famalicão e Paredes. É o retrato mais recente do que resta da prostituição de estrada no Norte: mulheres que se deslocam dezenas de quilómetros para trabalhar em zonas isoladas, longe de casa e de olhares conhecidos.
Algarve: sazonalidade, turistas e a EN125
O Algarve tem uma dinâmica própria, ditada pelo turismo. A atividade sobe no verão e na época de golfe (outubro-novembro) e desce no inverno. O cliente é frequentemente estrangeiro (britânico, irlandês, holandês, alemão), o que empurra os preços para cima em relação a Lisboa ou ao Porto, e a presença de mulheres imigrantes é forte.
Vilamoura e Quarteira
Vilamoura é a zona mais visível: a imprensa anglófona local chegou a chamar-lhe a “capital da prostituição do Algarve” e artigos de opinião falam de um mini bairro vermelho disfarçado. Casas de massagens multiplicam-se, há abordagens diretas na rua e à entrada de edifícios perto da Marina, e a ligação a Quarteira mantém atividade noturna regular.
EN125
Durante anos foi a principal “estrada da prostituição” do país. Boliqueime, a saída de Olhão, a entrada de Faro e o troço entre Faro e Vilamoura ainda registam presença, embora muito menor do que há 10-15 anos, quando redes organizadas colocavam mulheres ao longo da estrada.
Albufeira e Portimão
Mais indoor e mais associadas a bares e clubes, com alguma atividade de rua nas zonas turísticas durante o verão.
Preços, dinâmicas e riscos
Na rua os preços são uma fração do mercado online. As reportagens mais recentes apontam para valores entre 15 e 30 euros por um serviço rápido (oral ou completo), com os 20 euros como referência quase universal — na Reta de Coina, no Parque Eduardo VII ou em Monsanto. Em situações de maior desespero, os valores descem ainda mais.
O contacto é direto: um olhar, uma abordagem verbal, um gesto. O serviço faz-se no carro do cliente, em terrenos isolados, numa cadeira à beira da estrada ou, mais raramente, numa pensão barata. A exposição à violência, ao roubo e às infeções sexualmente transmissíveis é muito mais elevada do que no mercado indoor — as mulheres de Monsanto e de Coina relatam agressões e assaltos como parte da rotina.
Muitas acumulam outras vulnerabilidades: toxicodependência, sem-abrigo, problemas de saúde mental, situação migratória irregular ou dívidas a intermediários. As organizações de terreno relatam que uma parte significativa gostaria de sair da atividade, mas enfrenta barreiras económicas e sociais muito fortes.
Rua versus online: duas realidades paralelas
O contraste é gritante. O mercado online — sites especializados, WhatsApp, diretórios verificados — apresenta perfis dos 18 aos 30 anos, muitas vezes brasileiras ou portuguesas com aparência cuidada, preços a partir de 100-150 euros e algum grau de seleção de clientes. A rua concentra o extremo oposto: precariedade, risco e exclusão.
A pandemia acelerou esta divisão. Depois de 2020, muitas mulheres que trabalhavam na rua migraram para anúncios online. Em 2025-2026 o custo de vida trouxe algumas de volta à berma da estrada e às matas, mas a rua é hoje, sobretudo, o destino de quem não tem telemóvel, documentos, fotografias ou estabilidade suficiente para anunciar.
Onde procurar apoio
Para quem trabalha na rua, ou para quem quer sair, existem estruturas gratuitas, anónimas e sem julgamento: o GAT Intendente em Lisboa (rastreios, PrEP, preservativos, encaminhamento para o SNS), o Espaço Pessoa / APF no Porto (apoio psicológico, social e de saúde, balneários, equipas de rua), a associação O Ninho em Lisboa (apoio à saída da prostituição) e as equipas de rua da APF e de outras organizações no Norte e no Algarve.
Conclusão: residual, mas teimoso
O sexo na rua em Portugal em 2026 é um fenómeno residual, mas teimoso. Lisboa concentra a maior parte da atividade — Intendente e Martim Moniz, Parque Eduardo VII e Avenidas Novas, a Reta de Coina e Monsanto. O Porto é discreto e disperso, e no Norte a prostituição refugia-se nas matas de concelhos como Lousada, onde as câmaras respondem com blocos de betão. O Algarve mantém a sua dinâmica sazonal e turística, sobretudo em Vilamoura e na EN125.
Não é um mercado romântico nem, na maioria dos casos, uma escolha livre. É sobrevivência. Enquanto o online cresce e se profissionaliza, a rua continua a ser o espaço das que ficaram para trás — e qualquer discussão séria sobre trabalho sexual em Portugal tem de começar por reconhecer que existem duas realidades paralelas: a das acompanhantes que anunciam com fotografias e preços fixos, e a das mulheres que, à noite ou às dez da manhã, ainda esperam numa cadeira à beira da estrada.
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