O processo fechou-se às dezoito e catorze. Vitória limpa, sem recurso à vista. E a advogada sensual que acabara de arrasar a sala inteira desapertou o botão do blazer ainda no corredor do tribunal — devagar, como quem tira uma armadura que já não precisa de usar.

Chamava-se Sofia. Trinta e oito anos, saltos que se ouviam antes de ela dobrar a esquina, e uma voz que nunca precisou de subir para calar uma sala.

Atrás dela vinha Tomás Vale. Cliente há oito meses. Fatos caros, silêncios calculados, um olhar que nunca se perdia — e que, nos últimos tempos, demorava sempre um segundo a mais do que devia.

Oito meses de tensão que nenhum contrato previu

Durante oito meses fora só isso: cláusulas, pareceres, reuniões que se prolongavam até o escritório esvaziar e o silêncio ficar demasiado íntimo.

Sofia sabia exactamente o efeito que fazia quando se debruçava sobre a mesa para apontar um parágrafo. Sabia que a camisa abria um pouco. Sabia que ele desviava o olhar tarde de mais.

Nunca disseram nada. As mulheres como Sofia não precisam de dizer. Deixam a tensão a render juros.

Nessa noite, o pretexto chamava-se jantar de celebração.

O jantar em que a advogada deixou de ser advogada

Luz baixa, toalhas de linho, uma reserva feita em nome da sociedade. Sofia pediu champanhe sem perguntar a ninguém. Tomás sorriu de canto — aquele sorriso que ela fingia não notar há meses.

— Parabéns, doutora — disse ele, erguendo o copo.

— À mesa não sou doutora — respondeu ela, sem desviar os olhos. — Pelo menos não nesta.

O vinho desceu quente. A conversa fugiu do processo e foi parar a sítios mais perigosos: viagens, insónias, o cansaço de mandar em tudo e não ter quem nos mande em nada.

Debaixo da toalha, o joelho dele encostou ao dela. Sofia não se afastou. Manteve o contacto ali, deliberado, com a calma de quem lê uma cláusula até ao fim antes de assinar.

Foi ela quem chamou o carro. Foi ela quem deu a morada. Nem a casa dele, nem a dela: um hotel discreto, quarto alto, vista para o rio.

O quarto de hotel com vista para o rio

A porta fechou-se com um clique suave. Lá fora, Lisboa acendia-se toda de amarelo sobre a água.

Sofia encostou-se à madeira ainda de casaco vestido, o peito a subir devagar. Tomás ficou a dois passos, imóvel, à espera da ordem. Durante oito meses fora ela a conduzir o jogo — e ele já tinha percebido que era assim que gostava.

— Se ficares, isto deixa de ser profissional — disse ela, e a voz saiu-lhe mais rouca do que queria.

— Já deixou — murmurou ele. — Há semanas.

Sofia puxou-o pela gravata.

O beijo não teve nada de tímido. Foi oito meses de contenção a rebentar de uma vez: a mão dele na nuca dela, a dela a desapertar-lhe o cinto com uma precisão quase insultuosa. O blazer caiu no chão. A camisa branca abriu-se botão a botão.

Ele beijou-lhe o pescoço, a curva do ombro, a renda preta que ela tinha escolhido de manhã sem querer admitir para quem.

— Sabias — sussurrou ele contra a pele quente. — Vestiste isto a pensar em mim.

— Visti isto a pensar em mim — mentiu ela, ofegante. — Calhou estares aqui.

Quem manda quando as regras caem

Tomás ajoelhou-se. As mãos subiram devagar pelas meias finas, até encontrarem a liga, e Sofia sentiu o chão inclinar-se um bocado.

Encostou a cabeça à porta, fechou os olhos e abriu as pernas o suficiente para deixar claro o que queria. A boca dele encontrou-a por cima da renda — quente, paciente, insistente — e depois afastou o tecido para o lado com dois dedos, sem pressa nenhuma, como quem lê cada linha antes de assinar.

Ela agarrou-lhe o cabelo. O gemido saiu-lhe baixo, engasgado, o som de quem passa a vida a controlar a voz e já não consegue.

— Mais — pediu.

E ele deu-lhe mais, com uma paciência quase cruel, até as coxas dela tremerem e a mão aberta lhe tapar a boca para não acordar o corredor inteiro. Sofia veio de pé, encostada à porta, ainda de saltos.

Tomás levantou-se, limpou os lábios no interior do pulso e beijou-a devagar, para que ela se provasse a si própria.

Na cama, ela virou o jogo.

Empurrou-o de costas, despiu-lhe o resto, deixou-o pedir. Depois olhou-o de cima, o batom já desfeito, os olhos escuros de quem sabe exactamente onde está a ganhar.

— No escritório mandava eu — disse. — Aqui também.

Montou-o de frente e desceu num só movimento, fundo, até os dois gemerem ao mesmo tempo. Mexeu-se com o ritmo de quem não precisa de instruções: lento, circular, as unhas cravadas nas clavículas dele.

Tomás segurou-lhe a cintura, depois o peito, depois o pescoço — uma pressão leve, medida, que ela aceitou de olhos semicerrados.

— Olha para mim — ordenou.

Ele olhou. Nunca deixou de olhar.

O quarto encheu-se do som dos corpos, do lençol, da respiração descomposta. Quando ela veio outra vez, apertou-o de tal maneira que o ouviu praguejar baixo contra o ombro dela.

Foi então que ele a virou.

Puxou-lhe as ancas para cima, a palma aberta nas costas dela, e entrou de novo — mais fundo, mais firme, o polegar a pressionar-lhe a base da coluna. Sofia enterrou o rosto na almofada e pediu mais alto do que alguma vez pediu seja o que for.

A mão dele passou à frente e encontrou-a inchada, molhada, no compasso exacto. O orgasmo seguinte arrancou-lhe um grito que já não deu para engolir.

Tomás veio logo a seguir, com um gemido rouco contra a omoplata dela, o corpo inteiro em tensão até desabar, mole e ofegante, sobre as costas dela.

A cláusula que ficou por escrever

Ficaram assim um minuto inteiro. Suor, perfume caro, o rio a brilhar lá em baixo e nenhum dos dois com pressa de falar.

Depois ela virou-se e passou-lhe o polegar pelo lábio inferior.

— Isto não entra na acta.

— Nem no contrato — respondeu ele.

Sofia sorriu. Pequeno, perigoso, o sorriso de quem já ganhou o processo e ainda vai ganhar a noite.

— Uma noite. Fora de tudo.

Ele beijou-lhe o pulso, onde o relógio ainda marcava horas de escritório.

— Uma noite — concordou.

Mas as mãos dele já lhe procuravam outra vez a pele. E o corpo dela, traidor e honesto ao mesmo tempo, já se abria de novo.

Na segunda-feira houve reunião às nove. Fatos impecáveis, tratamento por doutora, uma pasta de couro entre os dois.

E, por baixo do blazer preto, a mesma renda.