A luz suave do anel de LED iluminava o rosto de Mariana enquanto ela ajustava a webcam pela terceira vez naquela tarde. O apartamento em Campo de Ourique, com as janelas amplas viradas para os telhados de Lisboa, tinha sido escolhido precisamente por aquela luminosidade natural que se misturava perfeitamente com a iluminação artificial. Aos vinte e oito anos, consultora de marketing durante o dia, Mariana estava prestes a entrar num mundo que a fascinava há meses: o camming.
— Tens a certeza disto? — perguntou Sofia, a sua melhor amiga, sentada no sofá de veludo azul-petróleo que ficava estrategicamente fora do enquadramento da câmara.
— Mais do que certa — respondeu Mariana, alisando o roupão de cetim cor de vinho que cobria a lingerie La Perla comprada especialmente para aquela noite. — Já fiz toda a pesquisa. Conheço os limites, sei o que vou mostrar e o que não vou. E sinceramente, Sofi… a ideia de ser desejada por dezenas de pessoas excita-me de uma forma que não consigo explicar.
Sofia levantou-se e aproximou-se. Era ligeiramente mais alta, cabelo escuro num long bob impecável, e tinha nos olhos aquele brilho de quem guarda segredos há demasiado tempo.
— Posso ficar? Fora do plano, claro. Só para… apoio moral.
Mariana virou-se e encontrou o olhar da amiga com uma intensidade nova. Havia qualquer coisa ali, uma tensão que existia há anos e que nenhuma das duas tinha tido coragem de nomear.
— Podes. Mas se ficares, quero que te sintas à vontade. Isto não é só trabalho para mim. É também libertação.
A primeira transmissão
O primeiro espectador entrou na sala às 22h03. Depois outro. E mais outro. Em quinze minutos eram já vinte e três pessoas a observar Mariana, sentada numa cadeira de design junto à janela, as pernas cruzadas a revelar apenas o suficiente da meia de renda preta que subia pela coxa.
PortugueseKing ofereceu cinquenta tokens. LisbonLover duplicou a oferta.
— Olá, meninos — murmurou Mariana para a câmara, a voz mais rouca do que o habitual. — Obrigada por se juntarem a mim esta noite. É a minha primeira vez… sejam gentis.
Os comentários começaram a aparecer. Elogios em português, inglês e francês. Pedidos. Sugestões. Valores a aumentar.
MasterJ: “Mostra-nos o que está debaixo desse roupão. 100 tokens.”
Mariana sorriu e ergueu-se da cadeira com uma graciosidade estudada. Os dedos deslizaram lentamente pelo nó do roupão e desfizeram-no com uma lentidão calculada. O tecido abriu-se, revelando o conjunto de lingerie negra: sutiã de renda que realçava os seios fartos, cuecas que eram pouco mais que um triângulo de tecido transparente e ligas que prendiam as meias num convite obsceno.
Do sofá, Sofia engoliu em seco. Conhecia o corpo da amiga de anos de praia e de mudanças de roupa partilhadas, mas isto era diferente. Havia uma consciência nova, uma performance que transformava familiaridade em desejo puro.
Os tokens dispararam. Duzentos. Trezentos. Quinhentos.
DarkDesire: “Toca-te. Mostra-nos como gostas.”
Mariana voltou a sentar-se, desta vez abrindo as pernas apenas o suficiente para a câmara captar o rendilhado das cuecas. A mão direita desceu lentamente pelo pescoço, entre os seios, sobre o abdómen, até pousar sobre o sexo ainda coberto. Começou a acariciar-se por cima do tecido, os olhos semicerrados, os lábios entreabertos.
— Assim? — perguntou à câmara. — É assim que querem ver-me?
O chat explodiu. Sofia mudou de posição no sofá, as coxas a apertarem-se involuntariamente. Sem se aperceber, tinha desapertado um botão da própria blusa.
Mariana reparou. No meio da performance, os seus olhos encontraram os da amiga. Houve uma pergunta silenciosa. Um convite.
A fronteira que desapareceu
Sofia levantou-se e aproximou-se devagar, ainda fora do enquadramento. Ajoelhou-se ao lado da cadeira.
— Posso? — sussurrou, tão baixo que os microfones não captaram.
— Por favor — respondeu Mariana, e havia súplica naquela palavra.
PortugueseKing: “Há alguém aí contigo? 500 tokens se mostrares.”
Mariana leu o comentário, o coração a disparar. Olhou para Sofia, sobrancelha arqueada. A resposta veio em forma de beijo. Sofia inclinou-se e capturou os lábios da amiga num gesto que era simultaneamente resposta a anos de tensão e performance para a audiência crescente.
A câmara captou o movimento. Os tokens explodiram. Mil. Mil e quinhentos.
— Rapazes — disse Mariana, afastando-se ligeiramente, o batom agora borrado —, permitam-me apresentar a minha assistente.
Sofia entrou no enquadramento, hesitante mas visivelmente excitada. Tinha-se despido da blusa, revelando um sutiã de renda branca que contrastava com a lingerie escura de Mariana.
MasterJ: “2000 tokens para verem beijarem-se de novo. Com língua.”
O valor foi alcançado em segundos. Mariana puxou Sofia para o colo. O beijo foi profundo, lento, cheio de uma fome reprimida durante anos. As línguas exploraram-se, as mãos percorreram pele e curvas, e os sons que escaparam foram completamente genuínos.
— Tira-me isto — pediu Sofia.
Mariana obedeceu, libertando os seios da amiga. Eram mais pequenos que os seus, mamilos rosados já duros. Inclinou-se e tomou um na boca, a língua a circular a aréola antes de sugar com lentidão.
Sofia gemeu, a cabeça caindo para trás, os dedos enterrados nos cabelos de Mariana. A câmara captou tudo: a intimidade, o desejo, a descoberta.
Até ao fim
DarkDesire: “Quero vê-las completamente despidas. 5000 tokens.”
Mariana afastou-se e olhou nos olhos de Sofia.
— Até onde queres ir?
— Contigo? — Sofia sorriu, metade nervosismo, metade luxúria pura. — Até onde me levares.
Ergueram-se, corpo contra corpo. Mariana virou Sofia de frente para a câmara e posicionou-se atrás dela. As mãos deslizaram pelas costelas, sobre os seios descobertos, até às calças de ganga. Desapertou o botão, baixou o fecho e deslizou a peça pelas ancas.
Sofia ficou apenas de cuecas de algodão branco, quase inocentes em contraste com a situação. Mariana beijou-lhe o pescoço e mordiscou o lóbulo da orelha enquanto as mãos exploravam e provocavam.
— A tua vez — sussurrou Sofia, virando-se.
Com dedos determinados, Sofia libertou os seios fartos de Mariana e tomou-os nas mãos, apertando, massajando, beliscando os mamilos até ela gemer alto o suficiente para os microfones captarem. As cuecas de renda deslizaram a seguir pelas pernas até caírem no chão. Mariana ficou apenas com as meias e as ligas.
Voltaram à cadeira. Desta vez foi Sofia quem se sentou. Mariana ajoelhou-se entre as suas pernas, olhou para a câmara — a audiência já ultrapassava os cem espectadores — e sorriu.
— Vão gostar disto.
Retirou as cuecas de Sofia com os dentes. O sexo da amiga estava à sua frente, depilado e já brilhante de excitação. Mariana não hesitou. A língua traçou um caminho lento desde o períneo até ao clitóris, saboreando e explorando.
Sofia arqueou as costas, as mãos agarradas aos braços da cadeira.
— Porra, Mariana… sim…
Mariana intensificou o ritmo, introduzindo dois dedos enquanto a boca se concentrava no clitóris inchado. Sofia começou a tremer.
— Vou gozar…
— Goza para mim — murmurou Mariana contra ela. — Goza para eles verem o quão bonita és quando te vens.
O orgasmo atingiu Sofia como uma onda. O corpo inteiro contraiu-se e um grito rouco escapou-lhe da garganta. Mariana não parou até Sofia a afastar, demasiado sensível.
Os tokens tinham ultrapassado os dez mil.
Sofia escorregou da cadeira e inverteu as posições. Agora era Mariana quem estava exposta, as pernas abertas, o sexo reluzente. Sofia olhou para a câmara com uma confiança nova.
— Mereço provar dela?
A resposta chegou em quinze mil tokens.
Sofia mergulhou entre as pernas de Mariana com voracidade. A língua explorou, os dedos penetraram, e rapidamente Mariana estava no limite. A excitação acumulada de toda a noite atingiu o ponto de rutura.
— Mais fundo — pediu ela, as ancas a moverem-se contra o rosto de Sofia. — Caralho, Sofi… mais…
Sofia obedeceu. Três dedos agora, curvados, atingindo o ponto exacto que fez Mariana gritar. O orgasmo foi violento e prolongado. O corpo sacudiu-se enquanto ondas sucessivas de prazer a atravessavam.
Quando finalmente desceu, Sofia rastejou para cima e beijou-a profundamente, partilhando o sabor de ambas. Abraçaram-se em frente à câmara, corpos entrelaçados, suor misturado, respirações ainda irregulares.
Depois das luzes
Mariana esticou o braço e encerrou a transmissão. O ecrã ficou preto. O silêncio do apartamento pareceu repentino e pesado.
Sofia ainda estava no seu colo, a cabeça apoiada no ombro dela.
— Isto… aconteceu a sério? — perguntou baixinho.
Mariana beijou-lhe a testa, depois os lábios, com uma ternura que não tinha existido durante a performance.
— Aconteceu. E não me arrependo de nada.
Sofia sorriu contra a pele dela.
— Eu também não.
Ficaram assim longos minutos, só a respirar uma contra a outra, enquanto o valor final da noite — mais de dezoito mil tokens — piscava quieto no ecrã do portátil. O dinheiro era real. O desejo também. E, pela primeira vez em muito tempo, Mariana sentiu que as duas coisas podiam existir no mesmo sítio sem se destruírem.
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