Há mulheres que se despem devagar. Leonor despiu-se sete anos antes de tirar o vestido. Este conto erótico começa aí: no momento em que uma mulher casada olha o marido pelo espelho e lhe diz a verdade sem baixar os olhos.

A luz do entardecer atravessava as janelas amplas da suite e pousava no soalho como um rio lento de âmbar. Leonor olhou-se no espelho uma última vez. O vestido verde-esmeralda colava-se-lhe ao corpo com a mesma honestidade com que ela tinha proposto aquela noite, meses antes, num jantar em que o vinho soltara a frase certa. Os saltos altos, finos, negros, faziam-lhe as pernas parecer mais longas do que a paciência de quem espera.

Miguel apertava os botões da camisa atrás dela. Sete anos de casamento. Sete anos a aprender que o desejo não morre de velho: morre de medo.

— Tens a certeza? — perguntou ele, sem desviar os olhos do reflexo dela.

— Tenho medo. E tenho a certeza.

A terceira mulher entra na suite

Três pancadas na porta. Diana entrou como quem já conhecia o quarto: vestido preto simples, sandálias de tira fina, um perfume floral com fundo de especiaria que chegou antes dela. Tinha o passo de quem não precisa de pedir licença ao próprio corpo.

Beijou Leonor nas duas faces e depois na comissura da boca, um segundo a mais do que a educação pedia. Miguel ofereceu champanhe. As mãos tremiam-lhe o suficiente para o copo cantar contra a garrafa.

Falaram de Lisboa, do Tejo, de quase nada. Até Diana pousar o copo, cruzar as pernas com uma lentidão calculada e dizer, olhando os dois de frente:

— Eu não venho tirar-vos nada. Venho ser o sítio onde se olham. Se em algum momento isto deixar de ser vosso, paramos.

O primeiro beijo entre duas mulheres

Leonor foi a primeira a levantar-se. Os dedos encontraram os de Diana e o toque foi seco, eléctrico, como se a pele já soubesse o que a cabeça ainda discutia. Diana puxou-a até ficarem peito contra peito e passou-lhe o polegar no lábio inferior, devagar, a medir a maciez.

— Posso beijar-te?

— Beija.

O beijo começou lento e ficou fundo. Línguas, o roçar dos dentes, um gemido preso na garganta de Leonor. Miguel viu a mulher que amava abrir a boca a outra mulher e sentiu o sangue descer-lhe todo de uma vez, duro contra o tecido das calças. Aproximou-se por detrás de Diana e pousou-lhe as mãos nos ombros nus.

— Posso?

— Podes. Os dois podem.

As mãos de Miguel desceram pelas costas de Diana até à curva firme das nádegas. Leonor abriu o fecho do vestido preto e o tecido caiu como uma sombra aos pés dela. Diana ficou de sutiã e cuecas de renda escura, a pele quente, os mamilos já marcados contra a renda. Leonor beijou-lhe o colo, depois o seio por cima do tecido, depois afastou o copo do sutiã e prendeu o mamilo entre os lábios. Diana arqueou o pescoço sobre o ombro de Miguel e ele, sem pressa, desfez o fecho do vestido verde da mulher. A seda escorregou pelas ancas de Leonor. As duas, de lingerie e de salto alto, beijavam-se outra vez, agora com as mãos dentro da roupa uma da outra.

Diana ajoelha-se aos pés de Leonor

Foram para o quarto sem pressa e sem pudor. Diana ajoelhou-se primeiro, os joelhos no tapete, os saltos ainda calçados. Afastou a renda de Leonor para o lado e passou a língua ao comprido, lenta, molhada, até ao clitóris. Leonor segurou-lhe a cabeça e abriu mais as pernas, os dedos enterrados no cabelo escuro.

Miguel ajoelhou-se ao lado, beijou a boca da mulher e levou a mão aos seios dela, a apertar um mamilo enquanto Diana a saboreava. O som era húmido, ritmado, obsceno de tão sincero. Leonor gozou depressa demais, as coxas a tremerem contra as orelhas de Diana, um gemido rouco abafado no pescoço de Miguel.

— Tira-me a roupa — pediu ela, ainda a ofegar. — A ele também.

Despiram Miguel entre as duas. Leonor segurou-o na mão e passou a língua da base à ponta. Diana juntou a boca à dela. As duas lambiam-no ao mesmo tempo, lábios a tocarem-se em volta dele, a saliva a escorrer-lhe quente pela pele. Ele enterrou os dedos no cabelo de ambas e respirou fundo para não acabar já.

«Entra nela. Quero ver.»

Diana deitou-se de costas na cama e abriu as pernas sem pressa, a olhá-lo. Leonor olhou o marido.

— Entra nela. Quero ver. Quero tocar.

Miguel encostou-se à entrada molhada de Diana e entrou num só movimento, fundo. Diana gemeu alto. Leonor deitou-se ao lado, beijou-lhe a boca e desceu a mão até ao sítio onde os corpos se juntavam, a sentir o marido entrar e sair, a pele esticada, o ruído húmido de cada estocada. Depois baixou a cabeça e lambeu o clitóris de Diana enquanto ele a possuía. Diana agarrou o cabelo de Leonor e gozou assim, contra a língua dela e o corpo dele, as costas inteiras em arco.

Trocaram sem palavras. Leonor pôs-se de quatro sobre os lençóis. Miguel segurou-lhe a anca e enterrou-se nela até ao fundo, forte, conhecido, e no entanto novo — porque Diana se deitava à frente, abria as coxas e puxava o rosto de Leonor para o seu sexo. Leonor saboreou-a no mesmo compasso em que era tomada: cada estocada empurrava-lhe a boca contra Diana.

O quarto encheu-se de pele a bater em pele, de gemidos sobrepostos, de «mais», de «assim», de «não pares». Miguel passou o polegar húmido pela entrada mais apertada de Leonor, apenas a pressionar, e ela gozou outra vez, a boca ainda aberta em Diana, um fio de saliva a ligá-las.

Três corpos, um só ritmo

Viraram-se de novo. Diana montou Miguel de costas para ele e desceu até o ter todo dentro. Leonor sentou-se-lhe no rosto. Ele lambeu a mulher que amava enquanto a outra se empurrava sobre ele, as nádegas a baterem-lhe na pélvis num ritmo que ela própria ditava. Leonor inclinou-se para a frente e beijou Diana na boca, seios contra seios, línguas lentas, enquanto os três corpos faziam um só movimento. O cheiro a sexo estava quente, denso, entre as coxas e os lençóis amarrotados.

Quando Miguel avisou que estava perto, saiu. As duas ajoelharam-se diante dele. Leonor recebeu-o fundo na boca. Diana beijou-lhe a base, a haste, tudo o que Leonor deixava livre. Ele acabou na língua de Leonor; ela puxou Diana e passou-lhe o sabor num beijo comprido, sujo, sem vergonha, o prazer dele a escorrer-lhes pelo queixo.

Ele viu-as a beijarem-se assim e sentiu o corpo inteiro esvaziar-se de tensão e encher-se de outra coisa: uma fidelidade estranha, mais larga do que a que tinha prometido no altar.

O que fica depois da terceira pessoa sair

Ficaram deitados muito tempo. Dedos preguiçosos nos seios, nas coxas, no sexo ainda latejante. Diana beijou o ventre de Leonor, depois o ombro de Miguel, e levantou-se com a mesma graça com que tinha chegado. Vestiu-se em silêncio, apertou as tiras das sandálias e parou à porta.

— Vocês não partilharam o corpo por fome — disse. — Partilharam porque se aguentam olhar. Isso é raro.

A porta fechou-se. O quarto ficou com o cheiro deles. Miguel puxou Leonor contra o peito suado, a mão pousada entre as pernas dela, sem pedir mais nada — só a guardar o calor.

— Amo-te.

— Eu sei — sussurrou ela, a boca no pescoço dele. — E agora o teu corpo também sabe que me podes ver inteira. Até assim.

Lá fora, Lisboa acendia-se sobre o Tejo. Dentro, o que ficou não foi o corpo de uma terceira mulher. Foi o direito de se desejarem sem mentira, até no sítio mais húmido e mais verdadeiro.

E o espelho da suite, que os viu vestidos ao entardecer, guardou para si o resto.