A luz do entardecer entrava pelas janelas altas do loft, banhando os móveis de design em tons dourados. Rita observava a cidade de Lisboa lá em baixo, o Tejo a serpentear preguiçoso ao longe, enquanto segurava uma taça de vinho branco. Tinha vindo à inauguração da galeria de arte de uma amiga, mas fora o olhar de um desconhecido que a fizera ficar.
Ele estava encostado à parede oposta, entre uma escultura contemporânea e um quadro abstrato, com um ar de quem pertencia naturalmente àquele mundo de sofisticação discreta. Alto, cabelo ligeiramente grisalho nas têmporas, vestido com uma elegância descontraída que denotava bom gosto sem esforço. Quando os olhos deles se cruzaram pela terceira vez naquela hora, ele sorriu. Não foi um sorriso predatório ou óbvio — foi uma promessa silenciosa.
Rita sentiu o pulso acelerar. Aos trinta e oito anos, já não era mulher de se deixar impressionar facilmente. Divorciada há dois, tinha aprendido a valorizar a própria companhia, a construir uma vida que lhe pertencia inteiramente. Mas havia qualquer coisa naquele homem que despertava algo adormecido.
Foi ele quem se aproximou primeiro, movendo-se entre os outros convidados com a confiança tranquila de quem sabe exatamente o que quer.
— Não és do meio artístico — disse ele, parando ao seu lado sem cerimónias. A voz era grave, com um ligeiro sotaque que ela não conseguiu identificar de imediato.
— E tu sabes isso como? — Rita virou-se para encará-lo, divertida com a abordagem direta.
— Pela forma como olhas para os quadros. Aprecias genuinamente, sem te preocupares com o que devias pensar deles. — Os olhos dele eram castanhos, quentes. — Sou o Miguel.
— Rita.
O aperto de mão prolongou-se uns segundos a mais. Os dedos dele eram quentes, firmes, e o toque enviou um estremecimento pela espinha dela.
— Posso oferecer-te outra taça de vinho, Rita? Ou preferes algo mais forte?
— Depende — respondeu ela, surpreendendo-se com o próprio atrevimento. — Do que tens em mente para o resto da noite.
O sorriso dele alargou-se, e algo escuro e promissor brilhou no olhar.
— Tenho uma garrafa de um Brunello excepcional no meu apartamento. Fica a dez minutos daqui. — Fez uma pausa calculada. — E uma vista sobre a cidade que te vai deixar sem palavras.
Rita devia ter hesitado. Devia ter pedido o número de telefone, marcado um jantar civilizado, seguido o protocolo dos encontros modernos. Mas havia meses que não se sentia assim — viva, desejada, desperta. E a forma como o corpo dele irradiava calor ao pé do seu, mesmo sem se tocarem, era um convite que ela não queria recusar.
— Dez minutos é perto — disse simplesmente.
· · ·
O apartamento dele era exatamente o que Rita esperava: elegante sem ser ostensivo, com obras de arte cuidadosamente selecionadas, mobiliário contemporâneo e, sim, uma vista espetacular sobre a cidade iluminada. As luzes de Lisboa piscavam como estrelas terrestres, e o castelo destacava-se no horizonte, majestoso.
Miguel serviu o vinho em silêncio, e ela observou-o — a forma como os dedos seguravam a garrafa, o movimento controlado ao verter o líquido rubi nas taças. Tudo nele transmitia contenção, uma intensidade disciplinada que a fazia perguntar-se como seria vê-lo perder o controlo.
— Há quanto tempo estás divorciada? — perguntou ele, entregando-lhe a taça.
Rita piscou, surpreendida.
— Como sabes que estou divorciada?
— A marca do anel desapareceu há tempo suficiente para não ser recente, mas ainda se vê uma ligeira diferença no tom da pele. E há qualquer coisa na forma como te moves... uma mulher que está a redescobrir-se. — Ele aproximou-se, mas manteve uma distância respeitosa. — Enganei-me?
— Não — admitiu ela, levando a taça aos lábios. O vinho era sublime, complexo, com camadas de sabor que se revelavam lentamente. — Dois anos. E tu? És observador profissional ou apenas extraordinariamente atento?
— Arquiteto. Passo a vida a reparar em detalhes que outros ignoram. — Ele deu um passo em frente, reduzindo o espaço entre eles. — E tu fascinas-me, Rita. A forma como inclinas a cabeça quando estás a pensar, como mordes o lábio inferior quando estás indecisa...
— Estou a fazer isso agora?
— Estavas. — A voz dele desceu uma oitava. — Já decidiste?
Rita pousou a taça numa mesa lateral e deu o passo que faltava para eliminar a distância entre eles. Conseguia sentir o calor do corpo dele, o cheiro da sua colónia — algo amadeirado, masculino, envolvente.
— Decidi.
Quando os lábios deles se encontraram, foi como completar um circuito elétrico. O beijo começou exploratório, quase tímido, mas rapidamente se aprofundou. A mão de Miguel deslizou pela curva das costas dela, puxando-a para mais perto, enquanto a outra se entrelaçava no cabelo dela. Rita deixou escapar um som baixo, entre suspiro e gemido, e sentiu-o sorrir contra os seus lábios.
— Há quanto tempo? — murmurou ele, beijando a linha do maxilar dela, descendo pelo pescoço.
— Demasiado — respondeu ela, respiração já irregular. As mãos dela exploravam as costas dele por baixo do casaco, sentindo os músculos através da camisa de linho.
Miguel recuou ligeiramente, olhando-a nos olhos com uma intensidade que a fez tremer.
— Quero fazer isto devagar — disse ele, a voz rouca. — Quero saborear cada momento contigo.
— Miguel...
— Shh. — Ele beijou-a novamente, desta vez com deliberada lentidão, como se estivesse a memorizar o gosto dela. — Deixa-me.
E ela deixou. Deixou que as mãos dele explorassem, que os dedos traçassem linhas de fogo pela pele exposta dos braços, pelos ombros, pela curva do pescoço. Cada toque era propositado, reverente, como se ela fosse uma obra de arte que merecia toda a atenção do mundo.
Moveram-se pela sala, uma dança lenta e sinuosa, parando para beijar, para tocar, para simplesmente olhar um para o outro como se estivessem a confirmar que aquilo era real. As costas dela encontraram a parede, e Miguel pressionou-se contra ela, deixando-a sentir o efeito que tinha nele. Rita arqueou contra ele, as mãos agarrando os ombros dele.
— Quarto — conseguiu dizer, e ele assentiu, pegando-lhe ao colo num movimento fluído que a fez rir, surpreendida.
O quarto era dominado por uma cama enorme com lençóis brancos imaculados e mais janelas com vista para a cidade. Miguel depositou-a na cama com cuidado, e ficou de pé por um momento, apenas a observá-la — cabelo espalhado pela almofada, olhos brilhantes, lábios inchados dos beijos.
— És linda — disse ele, com tal sinceridade que ela sentiu lágrimas a picar os olhos.
Há quanto tempo ninguém a fazia sentir assim? Desejada, mas também vista. Não como um objeto, mas como uma mulher completa, com história, profundidade, valor próprio.
— Vem — pediu ela, estendendo os braços.
Ele juntou-se a ela, e o peso do corpo dele sobre o dela era perfeito — sólido, quente, reconfortante e excitante ao mesmo tempo. Beijaram-se até ficarem sem fôlego, as mãos explorando com crescente ousadia. Rita desabotoou a camisa dele, revelando um torso tonificado, com um trilho de pelo que descia e desaparecia na cintura das calças. Traçou o caminho com os dedos, sentindo-o tremer sob o toque.
— Rita... — O nome dela nos lábios dele soava como oração e pecado ao mesmo tempo.
As roupas desapareceram gradualmente, revelando pele contra pele, curvas e planos, suavidade e força. Miguel adorava o corpo dela com as mãos e os lábios, descobrindo os pontos que a faziam suspirar, os toques que a faziam arquear. Quando os dedos dele finalmente a encontraram onde ela mais precisava, Rita agarrou os lençóis, perdida em sensações que há tanto tempo não permitia a si mesma sentir.
— Olha para mim — pediu ele, e quando ela obedeceu, viu-se refletida nos olhos dele — desejada, poderosa, livre.
Moveram-se juntos num ritmo que parecia ao mesmo tempo urgente e eterno, cada um atento ao outro, lendo os sinais dos corpos, ajustando, respondendo. Não era apenas físico — era uma conversa silenciosa, uma troca, uma entrega mútua que transcendia o meramente carnal.
Quando o clímax finalmente chegou, foi como uma onda que os engoliu a ambos — ela primeiro, arqueando e chamando o nome dele numa voz que mal reconheceu como sua, e ele logo a seguir, enterrando o rosto no pescoço dela, um gemido rouco escapando dos lábios.
Ficaram assim, entrelaçados, respirações gradualmente voltando ao normal, corações ainda acelerados. Miguel rolou para o lado mas manteve-a nos braços, acariciando distraidamente o cabelo dela.
— Fica — murmurou ele. — Pelo menos até de manhã.
Rita olhou pela janela para a cidade iluminada, sentindo-se mais presente, mais viva do que em anos. Isto era o que andara a perder — não apenas o sexo, mas a intimidade, a conexão, a permissão para se entregar sem medo.
— Está bem — respondeu, aninhando-se mais perto. — Fico.
E naquele momento, com a cidade aos pés deles e o futuro incerto mas cheio de possibilidades, Rita soube que tinha redescoberto algo essencial: o próprio poder, o próprio desejo, a própria capacidade de escolher o prazer sem culpa ou vergonha.
Isto era feminismo da forma mais visceral — reclamar o próprio corpo, o próprio prazer, a própria narrativa. E era glorioso.
Partilhar artigo